Quem é o meu próximo?

 

As razões que permeiam as relações humanas não mudaram ao longo dos séculos. Pelo contrário, tornaram-se mais acirradas e facilmente perceptíveis. De um lado, porque o contato entre um número cada vez maior de pessoas se tornou extremamente simples com o advento das redes sociais e de aplicativos como o WhatsApp. De outro, em razão do crescimento das cidades, que comportam milhões de habitantes que, de uma forma ou de outra, convivem em um mesmo espaço.

Entretanto, um dos grandes problemas que envolvem essas relações está na maneira como cada um enxerga quem é o seu próximo. Apesar de parecer uma questão óbvia, ao longo do tempo essa compreensão tem se deteriorado cada vez mais. Somos instigados, a todo momento, a estabelecer divisões que levam em consideração a religião, a posição social, a cor, o sexo, a origem, entre outros aspectos, em vez de reconhecermos a humanidade que compartilhamos e à qual todos pertencemos.

Em direção contrária a essa lógica, desde a Lei Mosaica, a posição que o outro ocupa em nossas relações sempre foi relevante, inclusive porque interfere em nosso relacionamento com Deus. É justamente essa questão que aparece no diálogo entre Jesus e um intérprete da Lei. No Evangelho de Lucas, um doutor da Lei se levanta para pôr Jesus à prova e pergunta: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Lucas 10:25). Jesus, conhecendo a sua intenção, responde com outra pergunta: “Que está escrito na Lei? Como interpretas?” (Lucas 10:26).

O intérprete da Lei, então, recorre aos mandamentos registrados em Deuteronômio 6:5 e Levítico 19:18: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Jesus reconheceu que ele havia respondido corretamente. Contudo, querendo justificar-se, o intérprete da Lei lançou outra pergunta: “E quem é o meu próximo?” (Lucas 10:29).

Jesus não respondeu ao questionamento de forma simples e direta. Em vez disso, contou a conhecida parábola do Bom Samaritano. E não foi por acaso que escolheu um samaritano como personagem central, uma vez que judeus e samaritanos mantinham profundas divergências históricas, religiosas e sociais.

E o que diz a parábola? Certo homem descia de Jerusalém para Jericó quando caiu nas mãos de salteadores, que o roubaram, espancaram e o deixaram quase morto. Por aquele mesmo caminho passaram um sacerdote e, depois, um levita. Ambos pertenciam a grupos religiosos e, embora tenham visto o homem ferido, passaram adiante sem ajudá-lo.

É então que entra em cena um personagem que certamente causava desconforto aos ouvintes judeus: um samaritano. Para mostrar o verdadeiro alcance do mandamento, Jesus relata que, ao ver aquele homem, o samaritano moveu-se de íntima compaixão. Aproximou-se, tratou suas feridas, colocou-o sobre o próprio animal e o levou para uma hospedaria, onde cuidou dele. Além disso, entregou dois denários ao hospedeiro para cobrir as despesas iniciais e comprometeu-se a pagar, quando retornasse, qualquer valor adicional que fosse necessário.

Ao concluir a parábola, Jesus devolve a questão ao intérprete da Lei: “Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?” (Lucas 10:36). Diante da evidência apresentada pela própria narrativa, o intérprete respondeu: “O que usou de misericórdia para com ele” (Lucas 10:37).

Em outras palavras, Jesus contou toda essa parábola para mostrar a um homem que deveria saber perfeitamente quem era o seu próximo que a questão não era simplesmente identificar quem merecia ser considerado próximo, mas compreender de quem ele próprio deveria se fazer próximo. O próximo não é apenas aquele que pertence ao nosso convívio. Não são somente aqueles de quem gostamos ou com quem mantemos um bom relacionamento. Também não se restringe aos nossos parentes, amigos ou àqueles que pensam como nós. O próximo pode ser justamente aquele que encontramos à beira do caminho, ferido e necessitado da nossa ajuda, até mesmo alguém de quem, por razões sociais, culturais, religiosas ou pessoais, preferiríamos manter distância.

Enfim, diante da insensibilidade que parece tomar conta do mundo, precisamos nos lembrar de que não é possível separar o amor a Deus do amor ao próximo. Amar o Senhor de todo o coração, de toda a alma, de todas as forças e de todo o entendimento exige que esse amor também se manifeste concretamente na maneira como tratamos aqueles que encontramos pelo caminho.

A parábola do Bom Samaritano nos confronta porque desloca a pergunta. Talvez a questão mais importante não seja simplesmente: Quem é o meu próximo?” Mas outra, muito mais desafiadora: “De quem eu estou disposto a me fazer próximo?”

 

Autor: Marcos A L Pereira

 

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