O que é o Reino de Deus?
É impressionante como, ao longo dos anos, a
compreensão sobre questões espirituais cruciais vem se diluindo sob a
influência das chamadas “pós-verdades”. Nas últimas décadas, verdades bíblicas
absolutas e inegociáveis para a Igreja passaram a ser tratadas superficialmente
como "usos e costumes", em vez de doutrinas firmadas na Palavra de
Deus.
A
realidade contemporânea parece evidenciar, de maneira particularmente intensa,
o alerta dirigido pelo apóstolo Paulo a Timóteo: “Porque virá tempo em que não
suportarão a sã doutrina; mas, tendo coceira nos ouvidos, amontoarão para si
doutores conforme as suas próprias concupiscências. E desviarão os ouvidos da
verdade, voltando às fábulas” (2 Timóteo 4:3-4). Regras humanas e
interesses egoístas têm, em muitos altares, substituído a verdade incontestável
das Escrituras.
Diante dessa distorção do propósito divino, uma
pergunta torna-se urgente: afinal, o
que é o Reino de Deus? A resposta a essa indagação é vital, pois uma
visão errônea sobre o tema, pode desencadear uma tragédia espiritual com
consequências eternas. Tratar o Reino como algo secundário apequena a soberania
de Deus sobre a criação.
Quando João Batista pregava às margens do Jordão,
sua mensagem era cristalina: “Arrependei-vos,
porque está próximo o reino dos céus” (Mateus 3:2). Não havia barganha
ou especulação. Tratava-se do anúncio da chegada do
governo de Deus, manifestado na pessoa e na obra de Jesus, diante do qual o
arrependimento se tornava uma resposta indispensável. Nada naquela pregação envolvia ganho financeiro,
status social, fama ou enriquecimento.
Hoje, porém, embora muitos líderes não explicitem
teologicamente sua visão sobre o Reino, suas práticas falam por si. Basta olhar
para as redes sociais para ver como a fé foi transformada em balcão de
negócios. O que deveria ser o governo soberano de Deus, virou refém da
especulação financeira e da lógica de mercado. Estruturas eclesiásticas passam a agir como
corretoras de investimento focadas no lucro a qualquer custo. Sob essa ótica
distorcida, o “sucesso ministerial” é medido por manipulação e ganância, um
caminho que inevitavelmente produz ruína moral, ética e espiritual.
Por isso, Paulo foi categórico ao definir a
essência do Reino: “Porque o reino de
Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”
(Romanos 14:17). E Jesus reforçou: “O
meu reino não é deste mundo” (João 18:36a). Ao
declarar que seu Reino “não é deste mundo”, Jesus não afirma que ele seja
irrelevante para a vida presente, mas que sua origem e seus métodos não
pertencem à lógica mundana do poder, da violência e da dominação.
Em outros termos, Jesus
foi conduzido à cruz, porque o Reino por ele anunciado confrontava poderes
religiosos, políticos e econômicos, além de cumprir o propósito redentor de
Deus. Ele não se dobrou as facilidades, pelo contrário; “Mas fez a si mesmo de
nenhuma reputação, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens.
E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à
morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:7-8).
Precisamos discernir com clareza de qual reino se
está falando hoje. Nem todo reino chamado de "cristão" vem de Deus.
No deserto, o diabo mostrou a Jesus “todos
os reinos do mundo e a glória deles” (Mateus 4:8), reinos pautados pelo
lucro, pela autossatisfação, pela falta de ética e pelo amor ao dinheiro. Jesus
os rejeitou. O verdadeiro Reino de Deus não se compra; ele é marcado por
justiça, paz e alegria no Espírito Santo.
Texto:
Marcos A L Pereira
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