A coroa e o bracelete!

 

Parece que, ao longo do tempo, temos perdido a sensibilidade e a humildade de reconhecer quem está revestido de autoridade, sobretudo a autoridade espiritual. Há uma forte mensagem subliminar prosperando em nossa geração que nos incita a viver sem reconhecer ninguém nem prestar qualquer tipo de reverência ou consideração. O que muitos dizem é que não temos tempo para esse tipo de coisa — algo que era muito relevante no passado, mas que, atualmente, "saiu de moda". A grande máxima que faz sucesso hoje é: "Farinha pouca, meu pirão primeiro".

Nesse contexto, é particularmente interessante o fato narrado em 2 Samuel 1. Contudo, antes de abordá-lo, é importante relembrar que Davi fora ungido rei de Israel pelo profeta Samuel, mas passou um longo período sem se assentar no trono ou se proclamar rei. Durante esse tempo, Saul empreendeu uma caçada feroz para matá-lo, pois havia descoberto, pela boca do próprio profeta, que Deus o havia rejeitado como rei e já tinha escolhido outro para ocupar o seu lugar.

Em razão dessa perseguição quase diária, Davi se tornou um andarilho em sua própria terra. Nenhum lugar em que chegava era seguro; a notícia do seu paradeiro alcançava quase instantaneamente os ouvidos do furioso Saul. Nessas idas e vindas de fuga e perseguição, Davi teve várias oportunidades de matar o rei Saul e se apropriar do trono. Do ponto de vista humano ou político, não parecia uma ideia absurda: Davi já tinha sido ungido pelo maior profeta daquele tempo, e Saul já fora avisado de que seu reinado chegara ao fim. Ou seja, tudo conspirava a favor de Davi.

Mas o que chama a atenção nesse episódio é que jamais, em nenhum momento ou sob qualquer circunstância, Davi pensou em tirar a vida de Saul. Para ele, existia um princípio inegociável de autoridade e submissão. Só de haver cortado a orla do manto de Saul, Davi se sentiu culpado e declarou: “O Senhor me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do Senhor, estendendo a minha mão contra ele; pois é o ungido do Senhor” (1 Samuel 24:6b).

Davi entendia que, apesar da loucura e da insensatez de Saul, ele continuava sendo o ungido do Senhor e, por isso, devia-lhe respeito e submissão. Entretanto, o fato mais marcante na relação entre Saul e Davi ocorreu quando o rei e seu filho Jônatas foram para a guerra contra os filisteus. Após uma batalha sangrenta, Jônatas foi morto e Saul, gravemente ferido pelos flecheiros e percebendo que não havia saída, lançou-se sobre a própria espada. Um jovem amalequita, ao avistar o rei morto no campo de batalha, tomou sua coroa e seu bracelete e os levou a Davi.

Pensando que obteria vantagens ou receberia alguma recompensa, o jovem inventou uma história, dizendo que o próprio Saul lhe pedira para tirar sua vida e que ele assim o fizera. Ao ver a coroa (que simbolizava a autoridade do rei) e o bracelete (adorno de nobreza e poder), Davi rasgou suas vestes e pranteou a morte de Jônatas e de Saul.

Davi compreendia que cada um deve esperar o tempo de Deus. Note que ele não comemorou a morte daquele que o perseguiu por anos pelas campinas de Israel; pelo contrário, lamentou profundamente. Isso nos ensina que Deus só exalta quem respeita a autoridade daquele que ainda carrega a coroa e o bracelete.

O seu tempo de honra só chegará se você viver com humildade e submissão o tempo da provação. Este é o princípio que Deus continua usando para nos exaltar: “Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” (1 Pedro 5:6). Em síntese: não atropele o tempo de Deus. Se Ele o ungiu, a sua hora de usar a coroa e o bracelete com certeza chegará.

 

Texto: Marcos A L Pereira

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