Remendo novo em roupas velhas!
As gerações mais novas talvez não
conheçam uma prática muito comum entre os mais pobres de algumas décadas atrás:
remendar roupas, principalmente as utilizadas no trabalho braçal. Esse processo
consistia em costurar um pedaço de tecido, nem sempre do mesmo tipo e muito
menos da mesma cor, para cobrir os buracos que surgiam com o uso constante.
Substituir a roupa custava caro e, por se tratar de uma peça usada no dia a
dia, considerava-se que ela ainda poderia ser útil por muito tempo.
Jesus utiliza a imagem do remendo
nos Evangelhos de Mateus 9:16, Marcos 2:21 e Lucas 5:36. Remendar roupas também
era uma prática conhecida naquela época, em que adquirir novas vestimentas não
era uma possibilidade acessível a todos. Por isso, o exemplo se ajustava ao que
Jesus pretendia comunicar àqueles que ouviam sua mensagem.
A questão surgiu quando Jesus foi
questionado sobre o motivo pelo qual os discípulos de João e os fariseus
jejuavam, enquanto os seus discípulos não faziam o mesmo. Ele respondeu: “Podem
porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles?
Dias, porém, virão, em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão” (Mateus
9:15). Em seguida, apresentou a comparação: “Ninguém deita remendo de pano novo
em roupa velha, porque semelhante remendo rompe a roupa, e faz-se maior a
rotura” (Mateus 9:16).
É importante observar que a
questão vai além de uma prática religiosa. O questionamento e a resposta de
Jesus colocavam em evidência um problema: seria possível recebê-lo e, ao mesmo
tempo, exigir que sua obra coubesse inteiramente nas formas antigas? Diante
daqueles que o ouviam estava quem anunciava uma nova maneira de compreender a
vida no Reino de Deus. Estava em jogo mais do que a observância de um rito
religioso; era necessário acolher a transformação que sua presença trazia.
Nesse sentido, no contexto da
parábola, a veste velha aponta para uma maneira de organizar a vida religiosa
que não reconhecia a novidade da presença de Jesus. O problema não era o jejum
em si, mas tomar as práticas conhecidas como medida obrigatória para avaliar
aquilo que Deus estava fazendo. Em outros termos, uma prática pode ter valor e,
ainda assim, tornar-se um obstáculo quando ocupa o lugar de Cristo.
Outro aspecto importante da
resposta de Jesus é que costurar um remendo de pano novo, ainda não encolhido,
sobre uma veste gasta agravaria o rasgo. A imagem mostra que sua obra não pode
ser acrescentada como um pequeno reparo a uma estrutura que permanece fechada à
sua mensagem. Jesus anuncia o perdão, chama pecadores e inaugura uma nova
relação com Deus. Recebê-lo exige mais do que incorporar algumas de suas
palavras às práticas habituais, exige fé nele.
Por fim, nas três narrativas, o
remendo inadequado compromete a veste. Lucas acrescenta que, ao retirar um
pedaço de uma roupa nova para consertar a velha, também se estraga a roupa
nova, e o remendo não combina com a antiga (Lucas 5:36). A advertência é dupla;
perde-se a integridade do novo e não se resolve o problema do velho. Quando se
tenta reduzir Jesus a uma confirmação das próprias regras, deixa-se de ouvir o
que ele veio anunciar.
Precisamos, portanto, perguntar
se nossas tradições nos ajudam a seguir Jesus ou se passaram a determinar o que
estamos dispostos a aceitar dele. A parábola nos convida a olhar para Cristo
antes de defender nossas formas religiosas. A pergunta decisiva não é: “Como
encaixar Jesus no que sempre fizemos?”, mas: “Estamos dispostos a compreender
nossa vida e nossa fé a partir de seus ensinamentos?”.
Texto: Marcos A L Pereira
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