O Grão de Trigo!

 

É desafiador entender a dinâmica e a ordem das coisas no Reino de Deus. Constantemente, em várias situações, elas se contrapõem a tudo o que nós, no nosso mundinho, tentamos estabelecer como critério justo e correto. Aqui no planeta Terra, sobem os que têm mais capacidade do ponto de vista técnico e segundo a avaliação dos outros; o menor deve servir ao maior; os que possuem mais recursos frequentemente exercem poder sobre aqueles que têm menos; os que nascem em famílias bem estruturadas e economicamente estáveis partem em condições mais favoráveis para disputar as melhores oportunidades.

Em outros termos, a corrida já começa de forma injusta e coloca em vantagem aqueles que nasceram em condições privilegiadas ou herdaram recursos. Entretanto, a experiência na Palavra de Deus nos leva em uma direção inversa à de tudo aquilo a que estamos acostumados. No Reino de Deus, a grandeza se expressa no serviço. O maior é o menor; quem procura preservar a própria vida a qualquer custo pode perdê-la; quem a entrega por amor a Cristo encontra seu verdadeiro sentido e os primeiros serão os últimos... Em síntese, encarar as coisas do ponto de vista de Deus é uma verdadeira loucura para nós, reles seres humanos.

Enquanto a lógica da competição nos ensina a preservar vantagens e acumular para nós mesmos, Jesus apresenta uma vida que frutifica por meio da entrega. Ao estabelecer a relação entre morrer e frutificar, Jesus traz um exemplo que tira o sono de muita gente. Ele compara a morte não só com a vida, mas também com uma produtividade além do esperado: “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (João 12:24). 

Ao falar do grão de trigo, Jesus aponta primeiramente para sua própria entrega. A partir dela, também nos convida a compreender que uma vida voltada apenas para a própria preservação não realiza plenamente sua capacidade de frutificar. Para nós, essa entrega implica morrer para o egoísmo e para o apego às próprias vantagens, colocando a vida a serviço de Deus e do próximo.

Veja que, na nossa ótica, é necessário viver mais, porque, ao continuar vivo e produzindo, a tendência, assim nos ensinam o mercado financeiro e o liberalismo econômico, é conseguir guardar cada vez mais. Nesse sentido, o sucesso tende a ser medido pela riqueza acumulada e pelo patrimônio deixado. Esse critério, que nos rotula como bem-sucedidos, não combina com a lógica de morrer primeiro e depois produzir.

A cobrança permanente por desempenho e o consumismo podem intensificar o cansaço e o sofrimento emocional, especialmente quando o valor de uma pessoa passa a ser medido apenas pelos resultados que apresenta. Essa pressão se fortalece quando assimilamos a lógica do consumo e permitimos que ela determine nossas prioridades, seja por adesão pessoal, seja pelas exigências do meio em que vivemos. Somos cobrados para sermos produtivos e mostrarmos resultados sempre maiores, em uma escala exponencial. Não há um limite a ser atingido. Como diz a expressão popular: “O céu é o limite”.

É nessa perspectiva de quase máquinas humanas que precisamos encarar a verdade do grão de trigo. E o dilema básico é o seguinte: se ele cair na terra e não morrer, ficará sozinho. Porém, se morrer, dará muito fruto. Qual será, então, a nossa escolha? Vamos continuar seguindo a dinâmica do mercado, do consumismo e do acúmulo de riquezas ou vamos preferir, mesmo que sejamos poucos, morrer para a lógica da sociedade e viver para Deus?

Por fim, talvez essa lógica pareça incompreensível hoje. Entretanto, à luz de Cristo, perder por amor pode revelar um sentido de vida que nenhuma conquista seria capaz de oferecer. Então, farão todo sentido as palavras de Jesus: “Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á” (Mateus 10:39). Morrer e perder... Frutificar e achar.


Texto: Marcos A L Pereira

 

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