O Poder que Adoece!

 

Desde os tempos imemoriais da humanidade, o poder e o seu exercício exercem verdadeiro fascínio sobre os seres humanos. Valendo-se de todos os meios e formas disponíveis em suas épocas, reis, imperadores e presidentes buscaram fortalecer-se e conquistar cada vez mais poder e, consequentemente, maior domínio sobre os seus semelhantes. Basta abrir um livro de História para encontrar dezenas de narrativas épicas de conquistadores e invasores que se tornaram célebres por suas estratégias de subjugar e controlar.

Dentre esses inúmeros casos, chama-nos a atenção a história de um homem que, no início, era apenas um jovem que ajudava o pai nos afazeres da fazenda, mas que, a partir do encontro com o profeta Samuel, teve a sua vida transformada. Trata-se do rei Saul. Em seu encontro com o profeta, registrado em 1 Samuel 9, Quis, pai de Saul, havia perdido suas jumentas e incumbiu o filho de sair pelos campos à procura delas.

Entretanto, o desaparecimento das jumentas era um “pretexto” divino para que o encontro entre Samuel e Saul acontecesse, pois Deus já havia revelado ao profeta que havia provido um rei. Aquele jovem despretensioso que percorria as regiões montanhosas de Efraim fora escolhido para uma missão que mudaria a sua vida e a sua história.

Quando chegou o momento de apresentar o escolhido aos chefes das tribos de Israel, “eis que se escondeu entre a bagagem” (1 Samuel 10:22). Pobre Saul. Não se sentia digno de assumir tamanha responsabilidade, ainda mais sendo o primeiro rei de Israel. Era um peso muito grande. Contudo, como escolhido pelo próprio Deus, não pôde recuar.

O fato é que a tragédia do reinado de Saul não reside em seus primeiros anos de inexperiência no trono de Israel. O problema é que, com o passar do tempo, Saul começou a se engrandecer. Conquistou muitas terras, subjugou povos e reinos poderosos. Em síntese, estava no auge: era ovacionado por seus súditos; bens, riquezas e poder estavam à sua disposição. Podia muito, e passou a acreditar que podia tudo.

À medida que a sanha pelo poder se entranhava em seu coração e em sua mente, Saul começou a experimentar o que ocorre na vida de todos aqueles que se deixam dominar por ele. Percebeu que o poder, embora abstrato, manifesta sintomas, degenera e pode entrar em colapso. Em outros termos, deixa de ser apenas uma estrutura externa e passa a revelar uma dimensão interna suscetível à corrupção, à perda de vitalidade e ao adoecimento.

Saul foi dominado pelo poder e, ao mesmo tempo, adoecido por ele, pois não seguiu as diretrizes de Deus para o seu reinado. Em diversas ocasiões, o profeta Samuel o advertiu quanto à mudança de rumo que promovia sem consultar ao Senhor. Mas, afinal, por que consultar ao Senhor? Ele era o grande rei, estava no comando. Seu fim foi trágico: após viver seus últimos dias atormentado por um espírito maligno, em sua derradeira batalha, lançou-se sobre a própria espada e morreu.

Observa-se que esses mesmos sintomas se repetem ao longo da história. Ainda hoje, quantos líderes, julgando-se deuses e colocando-se acima de tudo e de todos, assolam nações, aniquilam povos, escravizam e promovem verdadeira pilhagem dos mais fracos. Esse adoecimento no poder e pelo poder não começou nem terminou em Saul; ao contrário, tem se intensificado com o passar do tempo.

Enfim, o poder que adoece é aquele que se apropria de tudo, como se fosse Deus, e, além disso, não o reconhece em seus atos, decisões e caminhos. Por isso, aprendamos com o salmista: “Deus falou uma vez; duas vezes ouvi isto: que o poder pertence a Deus” (Salmos 62:11).


Texto: Marcos A L Pereira

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