E vós, quem dizeis que eu sou?

 

Se há algo que sempre marcou a vida e o ministério de Jesus, foi a definição de sua identidade e da identidade de seus discípulos. Isso ocorre porque quem não define a si mesmo não consegue identificar a quem pertence, tampouco a mensagem e a missão que devem ser seguidas e anunciadas.

Jesus estava acostumado a viver rodeado por multidões por onde passava. No entanto, esse fenômeno não enchia os olhos do Mestre, pois Ele sabia que, no meio daquela aglomeração de pessoas, era pequeno o número daqueles que realmente se identificavam com sua vida, seu ministério e sua missão. Na verdade, esse número se resumia a onze pessoas, pois, até mesmo entre os doze que Jesus escolhera, um se desviou.

O teste que Jesus aplicou aos doze discípulos, para verificar quem havia compreendido por que fazia parte daquele seleto grupo, consistiu no seguinte questionamento: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mateus 16:15). Entretanto, um pouco antes, Jesus quis saber qual era a opinião da multidão a seu respeito. Os discípulos responderam que o identificavam de forma polissêmica: “João Batista; outros, Elias; e outros, um dos antigos profetas ressuscitou” (Lucas 9:19).

Depois de conhecer a opinião da multidão, Jesus quis ouvir aqueles que o seguiam vinte e quatro horas por dia: “E vocês, a que conclusão chegaram sobre mim durante todo este tempo?”. Embora o texto bíblico não esclareça se houve um silêncio retumbante, o fato é que somente Pedro teve coragem suficiente para afirmar, sem nenhuma dúvida: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16:16).

As duas respostas, a da multidão e a do apóstolo Pedro, não representam apenas pontos de vista diferentes; elas evidenciam a importância de se conhecer a identidade de quem se está seguindo. A multidão oscilava entre diversos personagens da história que haviam marcado a vida espiritual do povo judeu. Em sua memória, só era possível realizar tais milagres se fosse um dos profetas ou, quem sabe, mais recentemente, o próprio João Batista. Ou seja, ainda estavam presos ao passado. As palavras de Jesus, nas quais Ele se identificava como o Filho de Deus, o enviado anunciado pelos profetas, ainda não haviam alcançado o coração deles. Eles ouviam as mensagens de Jesus, mas não se apropriavam delas.

Você sabe qual é o perigo de não se conhecer a verdadeira identidade de Jesus? É passar a prestar culto e adoração àqueles que se dizem ser o próprio Jesus. Além disso, muitos passam a considerar de forma mais absoluta os discursos humanos em detrimento da Palavra de Deus. Nesse contexto, aquele que deveria ser adorado é substituído pelo adorador. Infelizmente, nos últimos tempos, o culto à personalidade tem sido mais forte nas igrejas do que o culto ao Senhor Jesus. O altar deixou de ser lugar de sacrifício e adoração e passou a ser espaço de exposição de talentos, conhecimentos e oratória. Hoje, mais do que nunca, está em voga a velha máxima: “quem quer se estabelecer, tem que aparecer”.

A pergunta de Jesus ainda ecoa como um enigma para a igreja do século XXI. Não seria de se admirar que, ao interpelar alguns crentes com a pergunta “E você, quem dizeis que eu sou?”, viesse à mente de alguns o nome de um cantor gospel famoso, de um pregador, de um influenciador ou até mesmo de um de salvador da pátria. Isso acontece porque, por incrível que pareça, a grande maioria das pessoas que frequentam regularmente alguma igreja ainda não conhece a própria identidade, e muito menos a identidade de Jesus.

Enfim, para saber a identidade de Jesus, é necessário ser discípulos e não apenas seguidor; adorador e não apenas espectador, filho e não bastardo... Que o Senhor tenha misericórdia da nossa geração!

 

Texto: Marcos A L Pereira

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